Kevin Warsh assumiu a presidência do Federal Reserve prometendo comunicação mais direta, mas a possibilidade de um aumento na taxa básica em setembro pegou investidores de surpresa
Depois de meses de expectativa em torno de quem sucederia Jerome Powell, o Federal Reserve entrou em uma fase inédita. Kevin Warsh, o novo presidente do banco central americano, já comandou duas reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) e, ao contrário do que muitos analistas previam, não trouxe sinais claros de afrouxamento monetário. Para quem acompanha o câmbio e os juros no Brasil, essa mudança de tom levanta uma dúvida direta: o ciclo de cortes que parecia dado como certo pode, na verdade, estar perto do fim, ou pior, pode até se inverter?
A estreia de Warsh trouxe um Fed mais enxuto e menos previsível
Na primeira decisão sob seu comando, o Fed manteve a taxa básica de juros na faixa entre 3,5% e 3,75%, com o gráfico de projeções indicando uma mediana de 3,8% para o fim do ano, cerca de 0,16 ponto percentual acima do nível vigente na época. O detalhe chamou atenção porque, segundo apurou a imprensa especializada, havia suspeitas de que o próprio Warsh não tivesse enviado suas projeções ao comitê, já que se posicionava contrário ao uso do Resumo de Projeções Econômicas como ferramenta de comunicação. Ele chegou inclusive a ser apontado como alguém disposto a interromper esse tipo de divulgação no futuro. InfoMoneyInfoMoney
Essa postura não é acidental. Warsh sempre foi crítico do uso de projeções detalhadas e de outras formas de sinalização antecipada por parte do Fed, incluindo estimativas de desemprego, inflação e Produto Interno Bruto. Na prática, isso significa que o mercado perdeu parte da previsibilidade a que estava acostumado nos anos de Powell, quando cada palavra do presidente era dissecada em busca de pistas sobre o próximo movimento. InfoMoney
Por que a hipótese de alta voltou a ser discutida
O que realmente mexeu com os mercados nas últimas semanas foi uma informação divulgada pelo Financial Times e replicada por veículos brasileiros: fontes ouvidas pelo jornal britânico afirmam que Warsh estaria disposto a apoiar uma elevação dos juros já na reunião de setembro, caso os próximos dados de inflação surpreendam para cima e reforcem a necessidade de um aperto monetário adicional. Não se trata de uma decisão tomada, mas de um cenário que passou a ser levado a sério por quem opera no mercado de juros futuros. InfoMoney
Os números mostram isso com clareza. Atualmente, os contratos futuros apontam cerca de 55% de probabilidade de uma elevação de 0,25 ponto percentual, segundo dados da CME Group. É uma inversão e tanto em relação ao consenso que prevalecia até poucos meses atrás, quando a aposta majoritária era justamente o oposto: mais cortes, não altas. InfoMoney
O estilo de comunicação também mudou o comportamento do mercado
Um dos efeitos colaterais dessa nova fase ficou evidente logo na segunda reunião comandada por Warsh. Economistas de instituições como BofA e Goldman Sachs esperavam que o Fed abandonasse o chamado viés de flexibilização em seu comunicado oficial, retirando termos que sugerissem ajustes adicionais na taxa de juros, e foi exatamente o que aconteceu. A decisão de oferecer poucos detalhes sobre a estratégia futura provocou forte liquidação dos títulos do Tesouro americano, já que investidores consideraram que Warsh não havia dado orientação suficiente sobre como pretendia conter o surto inflacionário observado desde o início das tensões entre Estados Unidos e Irã. InfoMoneyInfoMoney
Mesmo diante da turbulência, pessoas próximas ao novo presidente do Fed avaliam que o rumo da reformulação da instituição deve seguir adiante. Warsh chegou a admitir ter cometido erros em suas primeiras dez semanas à frente do banco central, mas mudanças mais estruturais no processo de formulação da política monetária ficaram para um momento posterior, o que sugere que o período de adaptação do mercado a esse novo estilo ainda não terminou. InfoMoney
O que isso significa para quem acompanha o dólar no Brasil
Para o investidor e o consumidor brasileiro, a discussão pode parecer distante, mas não é. Juros mais altos nos Estados Unidos tendem a atrair capital para ativos americanos, o que historicamente pressiona o real e outras moedas emergentes. Se a hipótese de alta em setembro ganhar força nas próximas semanas, é razoável esperar reflexos no câmbio e no custo de importações, além de um ambiente mais cauteloso nas bolsas globais, incluindo a B3.
Vale reforçar que qualquer decisão do Fed ainda depende dos próximos indicadores de inflação e emprego nos Estados Unidos, e o próprio Warsh tem evitado se comprometer publicamente com um caminho único. A leitura mais prudente, portanto, é acompanhar os dados de perto em vez de tentar antecipar o resultado da reunião de setembro com certeza absoluta.
O que fica claro, passadas as duas primeiras reuniões da era Warsh, é que o Federal Reserve está mudando não apenas de comando, mas de filosofia de comunicação. Isso tende a gerar mais volatilidade no curto prazo, já que o mercado perdeu parte dos sinais a que estava habituado. Para o público brasileiro, o recado prático é simples: o cenário de juros americanos, que parecia caminhar para cortes graduais, voltou a ser uma incógnita, e essa incerteza deve continuar pautando o noticiário econômico nos próximos meses.
https://www.infomoney.com.br/economia/federal-reserve-mantem-juros-em-primeira-reuniao-comandada-por-kevin-warsh/
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