Buscando identidade dentro de casa, a decoração troca tendências replicáveis por objetos com significado real. Como assinala Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, esse movimento une peças herdadas de família a materiais naturais que envelhecem com dignidade, criando ambientes que contam uma história em vez de apenas seguir um catálogo. Arquitetos que acompanham as tendências para os próximos anos já descrevem esse fenômeno como a criação de um lar com narrativa, no qual um filtro de barro antigo ou uma cerâmica de família ganham o mesmo protagonismo que peças assinadas por grandes marcas.
Neste artigo, abordaremos como equilibrar afeto, função e estética em projetos que fogem do ambiente padronizado.
O fim do ambiente de vitrine
Durante anos, boa parte dos projetos residenciais buscou reproduzir a estética fotogênica das redes sociais, priorizando ambientes uniformes, iluminação impecável e móveis novos comprados em catálogo, quase sempre repetidos de casa em casa. Esse modelo criou espaços bonitos em fotografia, mas frequentemente vazios de qualquer conexão real com a rotina e a história de quem morava ali, funcionando mais como cenário do que como lar propriamente dito.
Na leitura de Daugliesi Giacomasi Souza, a virada para projetos mais autorais responde justamente ao cansaço gerado por esse padrão replicável, que deixava pouco espaço para escolhas genuínas de quem habitava o ambiente. Substituir a lógica da vitrine pela lógica da narrativa exige um processo diferente de projeto, no qual perguntas sobre memória afetiva e rotina real da família entram antes de qualquer decisão puramente estética.
Garimpo afetivo: dar lugar de destaque a uma peça de família
O termo garimpo afetivo, usado por arquitetos que acompanham tendências de decoração, descreve o processo de reunir peças vintage, objetos herdados e lembranças de viagem em um mesmo projeto, criando camadas de significado que nenhum catálogo consegue reproduzir. Um filtro de barro que pertenceu à avó, uma cerâmica trazida de uma viagem específica ou um móvel restaurado da casa da infância passam a ocupar posição central na composição, ao lado de peças contemporâneas escolhidas com mais critério.

Conforme frisa Daugliesi Giacomasi Souza, o desafio desse tipo de curadoria está em dar espaço de destaque à peça afetiva sem transformar o ambiente em um museu de lembranças desconectadas entre si. Posicionar o objeto herdado em um ponto de luz favorável, próximo a materiais que dialoguem com sua textura original, ajuda a integrá-lo à composição geral em vez de isolá-lo como curiosidade à parte.
Materiais que ganham valor com o tempo, não que se desgastam
Madeiras com veios marcados, pedras naturais e cerâmicas artesanais vêm substituindo acabamentos lisos e uniformes justamente por carregarem sinais de origem e de passagem do tempo, características antes escondidas e hoje valorizadas como parte do resultado final. Metais como cobre e latão, quando deixados oxidar naturalmente, seguem a mesma lógica, trazendo um aspecto rústico que envelhece de forma elegante em vez de parecer apenas desgastado.
Segundo pondera Daugliesi Giacomasi Souza, essa escolha de materiais também representa uma decisão prática de longo prazo, já que superfícies naturais tendem a disfarçar melhor marcas de uso do que acabamentos artificiais muito polidos, que evidenciam qualquer arranhão ou mancha com o tempo. Pequenas imperfeições deixam de ser tratadas como defeito e passam a compor a identidade visual do material, reforçando a sensação de autenticidade do ambiente como um todo.
Equilíbrio entre memória afetiva e função no projeto
Nem todo objeto herdado merece lugar garantido dentro de um novo projeto, e reconhecer isso costuma ser tão importante quanto valorizar as peças que realmente fazem sentido no conjunto final. Um processo de seleção criterioso, que considera estado de conservação, relação de escala com o restante do ambiente e coerência com a paleta de cores escolhida, evita que a casa acumule itens sem propósito estético ou funcional claro.
Combinar diferentes épocas e estilos dentro de um mesmo projeto pede um fio condutor visual capaz de unir as peças, seja por meio de uma paleta de cor recorrente, de texturas que se repetem ou de um mesmo tom de acabamento em metais e madeiras. Esse cuidado técnico transforma uma mistura aparentemente aleatória de objetos em uma composição coesa, na qual cada peça reforça o significado das demais, em vez de competir por atenção isoladamente. Um projeto com alma não se mede pela quantidade de objetos herdados que reúne, mas pela clareza com que cada peça escolhida ajuda a contar quem realmente vive naquele espaço.