O varejo brasileiro acumulou crescimento de 2,9% no primeiro semestre de 2026, mas o avanço ocorreu com mudanças importantes no perfil de consumo. Segundo dados do Mastercard SpendingPulse divulgados em 14 de setembro, os consumidores concentraram gastos em restaurantes, farmácias, serviços e categorias ligadas à conveniência, enquanto adiaram compras de maior valor, como móveis, itens de decoração e eletrônicos.
O desempenho também ganhou força ao longo do período. Na comparação com os mesmos intervalos de 2025, o varejo avançou 1,6% no primeiro trimestre e acelerou para 4,1% no segundo trimestre. O indicador considera operações no comércio físico e online e reúne transações realizadas por diferentes meios de pagamento.
Consumo acelera no segundo trimestre
A evolução trimestral indica um ambiente de consumo mais dinâmico na segunda metade do semestre. Ainda assim, o resultado não foi uniforme entre as categorias. A expansão foi mais evidente em segmentos associados a gastos recorrentes ou experiências de consumo imediato, enquanto setores dependentes de decisões financeiras maiores apresentaram desempenho mais fraco.
Esse movimento ajuda a explicar a diferença entre o crescimento geral do varejo e o comportamento observado nas lojas. O consumidor continuou frequentando estabelecimentos comerciais, mas demonstrou maior seletividade na hora de comprometer uma parcela mais elevada do orçamento. Na prática, serviços, alimentação e saúde ganharam espaço diante de bens duráveis e compras consideradas adiáveis.
Restaurantes e farmácias ganham força
Os restaurantes foram o principal destaque entre os segmentos citados no levantamento. As vendas da categoria cresceram 10,7% no primeiro semestre de 2026, resultado que reforça a importância da alimentação fora do lar no fluxo de consumo. Para centros comerciais, o desempenho mantém restaurantes, cafés e praças de alimentação entre as operações relevantes para atrair e reter visitantes.
As farmácias também registraram avanço consistente. A categoria cresceu 9,9% no primeiro trimestre e 9% no segundo, de acordo com o Mastercard SpendingPulse. O resultado combina o peso de itens de uso recorrente com a procura por produtos relacionados à saúde e ao bem-estar.
Bens duráveis enfrentam maior cautela
Na direção oposta, móveis e decoração e eletrônicos registraram retrações no primeiro semestre. São categorias que normalmente envolvem tíquete mais elevado e, em muitos casos, planejamento prévio ou acesso a crédito. A queda sugere que parte dos consumidores preferiu preservar o orçamento ou postergar decisões de compra diante de um cenário de maior cautela.
Para os varejistas, esse comportamento aumenta a importância de estratégias capazes de reduzir barreiras à compra, como integração entre canais físicos e digitais, ações promocionais e condições comerciais adequadas. Os dados, contudo, não permitem concluir isoladamente quais fatores determinaram a retração em cada categoria, nem medir o efeito individual de juros, renda ou crédito sobre as decisões.
Centro-Oeste lidera crescimento regional
O desempenho do varejo também variou de acordo com a localização. O Centro-Oeste liderou o crescimento do consumo entre as cinco regiões brasileiras, enquanto o Sudeste apresentou o ritmo menos acelerado. A diferença regional indica que a recuperação do comércio não ocorre de maneira homogênea no país e pode influenciar decisões de expansão, localização e composição de lojas.
Para shopping centers e empresas varejistas, o resultado amplia a atenção sobre mercados fora do eixo tradicional formado por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A liderança do Centro-Oeste não significa, por si só, que todos os segmentos tenham evoluído igualmente na região, mas sinaliza um ambiente de consumo regionalmente mais aquecido no período analisado.
Projeções apontam crescimento moderado
O cenário para os meses seguintes é de expansão, mas sem indicação de aceleração generalizada. Em setembro, outubro e novembro, uma pesquisa do IBEVAR em parceria com a FIA Business School projetou crescimento moderado das vendas do varejo, com diferenças entre os segmentos. O estudo utiliza séries dessazonalizadas da Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE e tinha junho de 2026 como último mês com dados reais disponíveis.
Com isso, os números do primeiro semestre reforçam uma leitura de consumo seletivo: o brasileiro segue movimentando o varejo, mas prioriza experiências, conveniência, saúde e serviços antes de assumir compras de maior valor. Para as empresas, acompanhar essa mudança de composição pode ser tão importante quanto observar o crescimento total do setor.