O mercado de recebíveis ganhou relevância na indústria brasileira de fundos ao longo de 2026. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) registraram R$ 56 bilhões em entradas líquidas entre janeiro e setembro, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA). O resultado colocou a categoria entre as principais responsáveis pelo desempenho positivo do setor no período.
A movimentação ocorreu em um cenário de forte captação da indústria como um todo. Nos nove primeiros meses do ano, os fundos de investimento acumularam R$ 251,7 bilhões em captação líquida, o segundo melhor resultado para o intervalo dos últimos cinco anos, de acordo com a ANBIMA. O levantamento foi indicado pela entidade em comunicado de 7 de outubro, com divulgação em 8 de outubro de 2026.
FIDCs ficam atrás apenas da renda fixa
Na comparação entre as categorias, os FIDCs ficaram atrás apenas dos fundos de renda fixa, que registraram R$ 136,1 bilhões em entradas líquidas até setembro. Os fundos de investimento em direitos creditórios também superaram os ETFs, que tiveram captação líquida de R$ 42,5 bilhões no mesmo intervalo.
Os números mostram que os FIDCs passaram a representar uma parcela relevante do fluxo de recursos direcionado à indústria de fundos em 2026. A comparação, porém, deve ser lida como um retrato de movimentação financeira no período, e não como uma medida automática de desempenho ou de rentabilidade para os investidores.
Captação líquida é a diferença entre os recursos que entram e os valores que saem de uma categoria de fundos. Assim, os R$ 56 bilhões representam o saldo líquido das aplicações e dos resgates registrados pelos FIDCs entre janeiro e setembro. O indicador não informa, isoladamente, quanto cada fundo rendeu nem elimina os riscos associados às operações que compõem suas carteiras.
Como os FIDCs se relacionam com o crédito
Os FIDCs são fundos estruturados para investir em direitos creditórios, que correspondem a valores a receber originados em diferentes operações. Entre os exemplos estão recebíveis comerciais, duplicatas e parcelas de operações financeiras. Na prática, esses ativos representam créditos que podem ser adquiridos pelos fundos e transformados em uma alternativa de financiamento para empresas e outros agentes econômicos.
De acordo com a explicação institucional da B3, os FIDCs estão associados ao mercado de recebíveis e ao crédito estruturado. Ao reunir recursos de investidores para comprar direitos creditórios, os fundos podem contribuir para a antecipação de valores que seriam recebidos no futuro pelos originadores das operações.
Esse mecanismo conecta o mercado de capitais à economia real. Uma empresa que possui valores a receber pode buscar a antecipação desses recursos, enquanto o fundo passa a deter os direitos creditórios correspondentes, conforme as regras de cada operação. O movimento amplia as possibilidades de financiamento baseadas em recebíveis, sem depender exclusivamente das formas tradicionais de crédito bancário.
A dinâmica também ajuda a explicar por que o desempenho dos FIDCs é acompanhado por investidores, empresas e participantes do sistema financeiro. A captação da categoria pode aumentar a disponibilidade de recursos para operações de crédito estruturado, embora seus efeitos dependam das características dos ativos adquiridos, da capacidade de pagamento dos devedores e da estrutura de cada fundo.
Resultado melhora em relação a 2025
Além do volume acumulado em 2026, a ANBIMA destacou a mudança em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre janeiro e setembro de 2025, os FIDCs, os fundos de investimento em participações e os Fiagros haviam registrado captação líquida negativa. A inversão observada neste ano indica uma diferença relevante no saldo entre entradas e saídas dessas categorias.
O dado, contudo, não permite concluir sozinho quais fatores determinaram a mudança no comportamento dos investidores. A informação divulgada pela entidade registra o resultado agregado da indústria e das categorias de fundos, sem atribuir a captação a uma causa específica ou indicar que o movimento será necessariamente mantido nos meses seguintes.
Para o mercado de crédito, o avanço dos FIDCs reforça a importância dos recebíveis como base para operações de financiamento e investimento. Para o público, a principal distinção é que uma captação líquida positiva descreve a movimentação de recursos nos fundos, mas não equivale a recomendação de investimento, garantia de retorno ou ausência de riscos.