Na análise de Alfredo Moreira Filho, empresário especializado em gestão, a agronomia atravessa uma das fases de mudança mais aceleradas de sua história. Um número ajuda a dimensionar esse movimento: no primeiro semestre deste ano, o Brasil chegou a 46,2 milhões de hectares tratados com produtos biológicos, um avanço de 18,3% sobre o mesmo período do ano anterior.
Por trás desse dado há uma transformação mais ampla. O engenheiro agrônomo, profissional responsável por planejar a produção, orientar o manejo do solo e das lavouras e prestar assistência técnica, vê seu trabalho mudar em várias frentes ao mesmo tempo. Mudam os insumos, muda o uso da terra e muda a forma de tomar decisões. Entenda, a seguir, quais tendências estão redesenhando a profissão e por que elas importam para quem produz e para quem consome.
Bioinsumos deixam de ser alternativa e viram estratégia
Bioinsumos são produtos de origem biológica, como fungos, bactérias e extratos naturais, usados para nutrir as plantas ou controlar pragas e doenças. O setor no Brasil ultrapassou R$ 7 bilhões na safra passada, o que coloca o país entre os três maiores mercados do mundo, junto com Estados Unidos e China. Há ainda um dado estratégico: cerca de 85% dos biológicos aplicados nas lavouras brasileiras são fabricados no próprio país, o que reduz a dependência de importações.
A mudança mais relevante, porém, está na forma de uso. Para a CropLife Brasil, o fato de a área tratada ter crescido em ritmo bem superior ao do faturamento indica que os biológicos estão alcançando mais lavouras, aplicados em conjunto com os químicos no manejo integrado. Essa combinação, no entendimento de Alfredo Moreira, exige do agrônomo um conhecimento mais fino de microbiologia e da interação entre produtos, já que não basta trocar um insumo pelo outro. O setor também acompanha de perto a Lei dos Bioinsumos, que se aproxima da fase final de regulamentação.
Recuperar pastagens virou prioridade econômica
Outra frente que mobiliza agrônomos é a recuperação de áreas degradadas. Segundo a Embrapa, as pastagens naturais e plantadas ocupam aproximadamente 160 milhões de hectares no Brasil, e parte expressiva delas perdeu produtividade por manejo inadequado. O programa federal de recuperação e conversão dessas áreas foi lançado com a meta de regenerar até 40 milhões de hectares em um prazo de 10 a 15 anos, incorporando-os à produção sem abrir novas fronteiras.

O tema tem forte dimensão social. De acordo com a Embrapa, 80% das propriedades com pasto em más condições são da agricultura familiar, o que torna a recuperação uma questão de renda para mais de 400 mil famílias. O trabalho envolve correção do solo, escolha de forrageiras e, em muitos casos, a conversão para sistemas integrados que combinam lavoura, pecuária e floresta. É uma atividade em que o diagnóstico técnico define o retorno de todo o investimento, como observa Alfredo Moreira Filho.
Dados e precisão mudam a tomada de decisão
A agricultura de precisão já não se limita às grandes fazendas. Sensores de solo, imagens de satélite, máquinas com piloto automático e mapas de produtividade permitem aplicar insumos na dose certa e no ponto exato da lavoura. Em vez de tratar a área inteira de forma uniforme, o produtor corrige apenas onde há necessidade, com menos desperdício, menor custo e menor impacto ambiental.
Para o agrônomo, isso significa somar à formação tradicional a capacidade de interpretar grandes volumes de informação. A recomendação técnica passa a se apoiar em séries históricas, mapas e indicadores, e não apenas na observação de campo. Alfredo Moreira entende que esse perfil analítico aproxima ainda mais a agronomia da gestão empresarial, área em que as decisões também dependem de dados organizados. E nenhuma variável testa tanto essa capacidade quanto o clima.
O clima entra no centro do planejamento
Estiagens prolongadas e chuvas concentradas tornaram o calendário agrícola menos previsível. Por isso, ganham espaço práticas que aumentam a resistência da produção: plantio direto, rotação de culturas, cobertura permanente do solo e diversificação de atividades na mesma propriedade. Solos mais ricos em matéria orgânica retêm mais água e atravessam melhor os períodos secos.
Essas práticas também respondem a uma exigência crescente do mercado. Compradores e investidores querem saber como o alimento foi produzido, e a rastreabilidade e a medição da pegada de carbono avançam em cadeias como a da carne. Na leitura de Alfredo Moreira Filho, o agrônomo dos próximos anos precisará ser, ao mesmo tempo, técnico, analista e gestor de riscos, capaz de proteger tanto a produtividade quanto a reputação de quem produz.