Quando se lê que a Fundação Gentil Afonso Duraes comporta até quarenta crianças por turno, o número parece modesto. Em tempos em que organizações sociais medem seu valor pela escala, quarenta vagas soam quase discretas demais para merecer atenção. Eloizo Gomes Afonso Duraes nunca se preocupou com essa percepção. Preocupou-se com outra coisa: que cada uma dessas quarenta crianças recebesse um atendimento genuinamente transformador. E essa escolha pela profundidade em vez da escala é exatamente o que torna o modelo da Fundação tão consistente ao longo de mais de duas décadas.
O que cabe em quarenta vagas
Quarenta crianças por turno, dois turnos diários, cinco dias por semana, ao longo de mais de vinte anos de operação contínua representam um número de trajetórias tocadas diretamente que supera em muito o que a capacidade instalada sugere à primeira vista. Mas o cálculo mais importante não é o quantitativo. É o qualitativo: o que cada uma dessas crianças experimenta durante o tempo que passa na Fundação.
Reforço escolar individualizado que permite avançar no próprio ritmo. Curso de informática com currículo estruturado que vai da alfabetização digital ao pacote Office. Atividades de coral e teatro que desenvolvem expressão, empatia e pertencimento. Atendimento odontológico que cuida de uma dimensão da saúde sistematicamente negligenciada. Transporte gratuito que elimina a barreira do deslocamento. Alimentação garantida pelo Projeto Sopão. Eloizio Gomes Afonso Duraes construiu, dentro dessas quarenta vagas, um ecossistema de desenvolvimento humano integral que poucos programas de qualquer escala conseguem replicar.

A falácia da escala como único critério de impacto
O terceiro setor brasileiro é frequentemente seduzido pela lógica da escala: quanto maior o número de beneficiários, maior o impacto. Essa lógica tem mérito em alguns contextos, mas pode ser profundamente enganosa quando aplicada sem nuance. Um programa que atende dez mil crianças com qualidade medíocre produz impacto real menor do que um que atende quarenta com excelência consistente, porque o impacto que permanece na vida de uma pessoa é determinado muito mais pela qualidade do que recebeu do que pela quantidade de outros que receberam algo parecido ao mesmo tempo.
Eloizo Gomes Afonso Duraes operou sempre a partir dessa compreensão, e o resultado é uma instituição que, após vinte anos, mantém a credibilidade e a confiança das comunidades que atende exatamente porque nunca sacrificou qualidade por quantidade.
Quarenta que se tornam quatrocentos
O impacto de quarenta crianças bem atendidas não se limita a quarenta trajetórias. Cada criança é parte de uma família, de uma rede de amizades, de uma comunidade. O que ela aprende, o modo como se desenvolve, a confiança que constrói e as perspectivas que abre se irradiam para o entorno, influenciando irmãos, colegas e, eventualmente, os próprios filhos dessas crianças quando se tornarem adultos. Eloizio Gomes Afonso Duraes soube desde o início que o verdadeiro alcance da Fundação Gentil Afonso Duraes era muito maior do que o número de vagas disponíveis sugeria.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez